terça-feira, 10 de março de 2020

“CAPOEIRA É TUDO O QUE A BOCA COME”: faces educativas de uma cultura negra no Pará, defesa de qualificação de mestrado de Antonio Alencar Filho




RESUMO

Este trabalho problematiza a implementação do Conselho Federal de Educação Física e dos Conselhos Regionais de Educação Física (CONFEF/CREF ́s) e sua repercussão no Pará em relação à prática da Capoeira, a partir da Lei 9696/98. Esta lei, possibilitou, dentre outras coisas, limitar a prática da Capoeira a uma atividade física esportiva sujeita a intervenção exclusiva do Profissional de Educação Física, gerando tensões com os praticantes de Capoeira. Visando compreender a relação tensa entre as duas instituições de saber, foi analisado o modo como a Capoeira tem sido apresentada nos currículos da Educação Física do Instituto Federal do Pará (IFPA) – Campus Tucuruí, da Universidade Federal do Pará (UFPA) e da Universidade do Estado do Pará (UEPA), três campos de referência para o ensino público da Educação Física no Pará. A pesquisa também analisou os diálogos e conflitos entre os e as praticantes de Capoeira do Pará e o Conselho, com enfoque nas construções de resistências dos capoeiras frente às tentativas de apropriação da Capoeira emanadas pelo CONFEF. Visando compreender os limites da apropriação da Capoeira pelo sistema, foi realizado trabalho de campo junto a um grupo de Capoeira Angola denominado Malungo Centro de Capoeira Angola, para analisar se suas práticas culturais estão além ou não da concepção de Capoeira do sistema CONFEF/CREF ́s e do alcance dos currículos da Educação Física no Pará, especificamente do IFPA – Campus Tucuruí, da UFPA e da UEPA. As principais fontes foram entrevistas concedidas por representantes do CREF18, Mestres de Capoeira do Pará, as resoluções internas dos Conselhos, os comunicados e a página eletrônica do sistema CONFEF/CREF ́s. O método do procedimento técnico dessa investigação em que favoreceu a orientação e análise objetiva do estudo dos fatos foi baseada na metodologia da história oral (THOMPSON, 1992), análise documental e atividade de campo, como etnografia (BRANDÃO, 1999). Em relação à historiografia da capoeiragem paraense lançou-se mão dos estudos de Leal (2008) e Salles (2015), no caso da Educação Física brasileira, de Castellani Filho (1994) e Neira e Nunes (2009). Referente ao sistema CONFEF/CREF ́s, especificamente, a pesquisa sucedeu-se via documentos, artigos científicos, fontes digitais da página oficial do CONFEF, dissertações, teses, leis, entre outras. Durante o estudo de caso foram verificados evidências e fatos concretos de intervenções do sistema CONFEF/CREF ́s na Capoeira e as resistências dos e das capoeiristas de vários lugares do Brasil, Nozaki (2004). No Pará, as estratégias dos capoeiras, como forma de resistência, foram múltiplas. Variava da adesão parcial à sabotagem sutil ao sistema. Uma relação tensa, mas reveladora da ausência de afinidades entre as duas instituições. Visando compreender os sentidos próprios da Capoeira em relação ao tema da Educação Física, após realizar trabalho de campo junto ao Malungo Centro de Capoeira Angola, considerado como tradicional em relação à prática da Capoeira, observamos sentidos e práticas que não cabiam na definição de Educação Física dada pelo sistema CONFEF/CREF ́s. Longe de ser apenas “uma atividade física esportiva”, a Capoeira vivenciada no Malungo Centro de Capoeira Angola se revelou como um instrumento de educação cultural cuja densidade não cabe nas definições de formação exclusiva do Profissional de Educação Física. Os resultados revelaram um distanciamento imenso entre as duas instituições de saber. Apesar de ambas possuírem caraterísticas educacionais em suas bases, a prática da Capoeira não se limita aos aspectos esportivos. Trata-se de uma prática cultural negra com imensa potencialidade para a educação e a formação de identidade. Enfim, a Capoeira pode estar na Educação Física, porém a Educação Física talvez não esteja e não seja Capoeira.

Palavras-chaves: Capoeira; Educação Física; CONFEF/CREF ́s; Esporte; Cultura; Pará.

PAU E CORDA: O CARIMBÓ E O PROCESSO DE ANTROPIZAÇÃO VIGIENSE, defesa de qualificação de mestrado de Raimundo Paulo Monteiro Cordeiro





RESUMO

Este trabalho trata dos impactos ecológicos e culturais do processo de antropização da região do Salgado, em particular na região de Vigia, em torno da prática cultura negra do carimbó e sua manutenção. O carimbó, segundo Leal (1995), é todo um conjunto musical que envolve os instrumentos e a dança. Desse modo, a ação antrópica do homem na natureza, o lócus da pesquisa é a região do Tauapará que pertence à cidade de Colares, onde estão localizadas as comunidades quilombolas de Cacau, Ovos e Terra Amarela, e também as comunidades tradicionais de Santo Antônio do Tauapará, Bom Jesus e Conceição. Essas comunidades possuem uma teia de relações sociais e culturais com aquelas comunidades quilombolas e estão intrinsicamente ligadas com a história da escravidão e de suas heranças culturais do carimbó. Essas comunidades possuem uma área de floresta que se utilizam como forma de sobrevivência. É basicamente dessa floresta que os grupos de carimbó dependem para a manutenção dos instrumentos musicais. A pesquisa baseia-se em análise qualitativa de dados obtidos a partir de entrevistas e diário de campo (CHIZZOTTI, 2003). A partir das narrativas obtidas durante a pesquisa foi possível perceber que: ainda persiste o mito da “floresta virgem” (DEAN, 1995, p.38), e que os mateiros e caçadores compreendem a floresta com algo isolado da realidade da comunidade. Aqui será necessária a quebra do paradigma ecológico (INGOLD, 2015) da dualidade de cultura x natureza inventada pela ciência do ocidente. Não há limites entre natureza e cultura se entendermos a natureza e a cultura como uma coisa só. A natureza e a cultura são um organismo, uma totalidade indivisível que se desenvolve constantemente. Não se trata de apropriar-se do ambiente pela mediação da cultura, incorporando-o na nossa teia de significados humanos, mas de reconhecer a singularidade das perspectivas dos diversos organismos no seu habitar o mundo.

Palavras-chave: Carimbó. Instrumentos musicais. Identidade negra.

quarta-feira, 29 de maio de 2019

DEFESAS E QUALIFICAÇÕES DE MESTRADO DO GHISCAM

Ao longo do mês de junho, o Grupo de Pesquisa História em Campo participará de uma série de defesas e qualificações de mestrado em que o prof. Augusto Leal está na condição de avaliador ou orientador. Todas são temáticas de pesquisa de mestrado de membros do nosso grupo de pesquisa.

CRONOGRAMA

Dia 6 de junho, 14:30, no CEMEC/UFPA Castanhal, teremos a defesa de Rafael Ribeiro, com a pesquisa A Teucy é uma Nação Própria": Transnação e Malha Ritual no Culto às Folhas  na Tenda Espírita de Umbanda Yacira- Ananindeua-PA

No dia 7 de junho, 14:30, no CEMEC/UFPA Castanhal, teremos a defesa de Luciane Camões, com a pesquisa “ELAS JOGAM, TOCAM E CANTAM”: PRÁTICAS E DISCURSOS SOBRE A EXPERIÊNCIA HISTÓRICA DE MULHERES CAPOEIRISTAS NO PARÁ.

No dia 17 de junho, 14:30, no Campus de Cametá, teremos o exame de qualificação de Antônio Alencar Filho, com o trabalho EDUCAÇÃO FÍSICA É “TUDO O QUE A BOCA COME?”: a implementação do sistema CONFEF/CREF’s e sua repercussão no Pará em relação à prática da Capoeira.

No dia 27 de junho, 14h, no Campus de Ananindeua, teremos o exame de qualificação de Alerrandson Pinon, com o trabalho O ENSINO DE HISTÓRIA DA ÁFRICA NO BRASIL: RECURSOS DIDÁTICOS E DIGITAIS PARA UMA EDUCAÇÃO VOLTADA PARA AS QUESTÕES ÉTNICO-RACIAIS.

Vejam suas agendas e participem das avaliações dos nossos colegas.

GHISCAM e o dia da África de maio de 2019


O dia 25 de maio é considerado o Dia de África porque foi neste dia, em 1963, que se criou a Organização de Unidade Africana (OUA), na Etiópia, com o objetivo de defender e emancipar o continente africano. Em 1972, a Organização das Nações Unidas (ONU) estabeleceu o dia 25 de maio como o Dia da África ou o Dia da Libertação da África. Em 2002 a OUA foi substituída pela União Africana mas a celebração da data manteve-se.
Este dia recorda a luta pela independência do continente africano, contra a colonização europeia e contra o regime do Apartheid, assim como simboliza o desejo de um continente mais unido, organizado, desenvolvido e livre.
In https://www.calendarr.com/portugal/dia-da-africa/
Nosso grupo de pesquisa tem, entre suas linhas, a temática do Ensino e pesquisa sobre História da África.
Véspera da comemoração deste ano, tivemos o prazer de defender o primeiro trabalho de pesquisa, em nível de mestrado, sobre o tema. A profa. Janice Rodrigues, sob minha orientação, defendeu a dissertação ENTRE DISCURSOS E REPRESENTAÇÕES- O LIVRO DIDÁTICO E NACIONALISMO NA ANGOLA INDEPENDENTE (1975-1980), com brilhantismo.
O trabalho foi bastante elogiado pela banca, pela qualidade e pela originalidade.
Escrever sobre África, a partir da Amazônia, é um desafio que temos semeado na graduação e alcançou o mestrado. Desejo que siga para o doutorado em breve.

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Seis líderes afro-religiosos foram assassinados na Região Metropolitana de Belém (RMB) em menos de um ano. A onda de crimes provoca terror, mas também mobilização em defesa das religiões de matriz africana na capital paraense.

Perseguição religiosa - Abílio Dantas- 26 Ago, 2016

Quando Carlos da Silva Nazaré, 53 anos, sai de sua casa para participar de uma reunião com outros líderes afro-religiosos no município de Ananindeua, já sabe bem o que esperar dos olhares nas ruas. Sua indumentária tradicional, formada por pano de cabeça e túnica de origem africana, causa viradas repentinas de rostos e comentários jocosos em seu caminho. O desconforto habitual, no entanto, recebeu um elemento agravante nos últimos meses: o medo. Isso porque, entre os dias 5 de outubro de 2015 e 7 de agosto deste ano, seis sacerdotes de religiões de matriz africana foram vítimas de homicídio na Região Metropolitana de Belém (RMB), segundo levantamento de lideranças afro-religiosas. Os fatos causam terror no “povo de terreiro”, como se identificam, e provocam questionamentos aos representantes da segurança pública do Pará.

A mãe de santo Inez Rodrigues abriu seu terreiro para receber outras lideranças e debater formas de combater a violência (Foto: Kleyton Silva)

Em uma tarde de sexta-feira, 27 lideranças e praticantes das religiões de origem africana, entre pais, mães e filhos de santo, reuniram-se na casa Seara de Umbanda Mamãe Oxum, no conjunto Cristo Redentor, Ananindeua, para debater os casos de violência e pensar ações de resistência com o objetivo de superar o momento de insegurança. A mãe de santo Inez Rodrigues, responsável pelo terreiro, foi a anfitriã do encontro que reuniu reflexões sobre homofobia, criminalização da periferia e ódio alimentado contra a cultura afro-religiosa.

PERSEGUIÇÃO

Mãe Inez, com a voz firme, iniciou a reunião. “Faço questão que você coloque aí: nós não cultuamos o demônio. Para mim, toda essa violência começa com essa mentalidade.” Para a mãe de santo, os assassinatos dos pais de santo estão ligados diretamente ao aumento da intolerância religiosa. A primeira vítima foi Roberto Ruan Neves da Silva, em Benevides. Já no bairro da Pratinha II, em Belém, foi assassinado o pai Marco Antônio Albuquerque da Cruz. Em Castanhal, a vítima foi José Flávio de Andrade. No distrito de Icoaraci, também houve um assassinato: Raimundo Nonato Ferreira. O mais recente foi o caso de José Mário Cavalcante da Silva, assassinado em Ananindeua. “Sabemos que cada um dos casos tem sua particularidade, mas chama atenção o fato de todos serem pais de santo e nós sabermos também de casos de ameaça e apedrejamento”, afirmou mãe Inez.

Pai Mário Cavalcante, morto no dia 7 de agosto após receber doze golpes de faca, já havia relatado a pessoas próximas, segundo Mãe Inez, que corria perigo. “Eu dizia pra ele: ‘Saia desse lugar, pai’. Mas ele dizia que não ia sair, que não ia dar moleza para aquelas pessoas. Acabou acontecendo isso.” No dia do enterro de pai Mário, 8 de agosto, outro momento de tensão foi vivido por amigos e familiares da vítima. Pai Carlos da Silva Nazaré, da casa Tambor de Mina Estrela Dalva, relata que quatro indivíduos, distribuídos em duas motos, ameaçaram entrar no cemitério. “Só podemos sair de lá quando pedimos o auxílio de policiais militares. Nós ficamos com medo”, contou.

“Ser homossexual, morar na periferia e ser afro-religioso é estar suscetível a diferentes tipos de discriminação".

O fato de apenas homens, pais de santo, e não mães de santo, terem sido alvo dos ataques, insere no debate sobre a violência, para os participantes da roda, mais um elemento: a homofobia. Augusto Santos, filho de santo e militante de direitos humanos junto a instituições como a Secretaria de Estado de Justiça e Direitos Humanos (SEJUDH), acredita que é necessário atentar para o que chama de “afunilamento da violência”. Para ele, os pais de santo estavam amplamente expostos e vulneráveis. “Ser homossexual, morar na periferia e ser afro-religioso é estar suscetível a diferentes tipos de discriminação. É claro que a violência está em todo lugar, mas é preciso considerarmos essas questões. Na periferia todos estão mais expostos.”

O pai de santo Carlos da Silva Nazaré relata que a perseguição sofrida por pai Mário Cavalcante teve consequências até mesmo no enterro do afro-religioso (Foto: Kleyton Silva)

A prática de manter as casas de culto disponíveis para a entrada de qualquer pessoa, segundo os afro-religiosos, pode ser também outro elemento que exige mais atenção por parte da segurança pública na hora de cumprir sua função. Caso não haja a proteção necessária para a garantia do direito de liberdade de culto, os pais de santo podem ser obrigados a modificar seus costumes. Esse é o caso do pai Marcelo Maciel Simões, que há 28 anos mantém uma casa aberta, antes em Belém e, agora, em Icoaraci. “Hoje em dia eu não abro as portas do meu terreiro em dia de festas para estranhos e só atendo clientes por indicações de pessoas que confio. Me sinto indignado da gente não poder ter o livre arbítrio de expressão”, protesta o sacerdote.

Acusações são recorrentes na história de mães e pais de santo. Quando passou a atuar em Ananindeua, após morar anos no bairro da Cidade Velha, em Belém, mãe Inez diz que suas crenças religiosas passaram a ser vistas como ameaças ao bem estar da vizinhança. Certo dia, um morador do conjunto Cristo Redentor acionou a polícia para que interrompesse os rituais que estavam sendo realizados na Seara de Umbanda Mamãe Oxum. A alegação? Estariam sacrificando crianças no local. 

As lideranças afro-religiosas estão unidas para encontrar soluções aos casos de intolerância vividos em seus terreiros (Foto: Kleyton Silva)

“Ele (o vizinho) ouviu o barulho de um menino que caiu no terreiro ou de crianças que estavam brincando, e falou pra polícia que a gente estava matando crianças. Você já pensou?” Segundo mãe Inez, hoje o denunciante é seu amigo, mas a história, para ela, ainda é válida para exemplificar os preconceitos que podem estar por trás dos casos de assassinato da região metropolitana.

ACIRRAMENTO

Os tempos estão piores para o povo de terreiro. É o que afirma mãe Mameto Nangetu, membro do Comitê Nacional da Diversidade Religiosa e conselheira de cultura de religiões de matriz africana de Belém. Em décadas passadas, segundo ela, vários terreiros eram mantidos sob a proteção de importantes políticos do estado do Pará. “Eles não apareciam nas festas, mas cansei de ir em cerimônias onde eram enviados garçons de hotéis famosos de Belém, como o Grande Hotel, e a comida servida era da melhor qualidade. Hoje em dia, algumas igrejas evangélicas propagam a ideia de que nós (afro-religiosos) somos assassinos, por isso aumentaram os ataques”, acredita a sacerdotisa.

“Em crises, o mal é materializado para que seja combatido. Algumas instituições de cunho neopentecostal propagam essa ideia".


A mesma concepção, sobre o acirramento dos ataques, é defendida pelo historiador Luiz Augusto Pinheiro Leal, pesquisador da Universidade Federal do Pará (UFPA) e doutor em Estudos Étnicos e Africanos pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Historicamente, em épocas de crise econômica e política, de acordo com ele, são escolhidas categorias sociais para serem tratadas como inimigas, como foi o caso da comunidade judaica na Alemanha de Hitler. O mesmo estaria ocorrendo agora com os grupos afro-religiosos no Brasil.


“Em crises, o mal é materializado para que seja combatido, para que haja algo contra o que combater. Algumas instituições de cunho neopentecostal trabalham com a ideia fixa de bem e mal e propagam essa ideia. Dessa forma, a liberdade de ódio e para perseguir e matar se torna mais aberta, como não era antes”, explica o pesquisador. Sobre a presença de políticos em terreiros, o professor explica que líderes como Magalhães Barata, e outras pessoas de prestígio financeiro e político, são bastante citados como parceiros das religiões no passado. No entanto, também afirma que não existem comprovações para os relatos, até o momento.



A mãe Mameto Nangetu acredita que a polícia deve ser 
melhor preparada para tratar com os afro-religiosos 
(Foto: Klewerson Lima)

Para mãe Nangetu, uma forma de modificar o quadro de violência seria o desenvolvimento de cursos que capacitassem os policias e demais agentes de segurança para lidar com os cultos de matriz africana. “Quando fazemos denúncia de intolerância religiosa, o delegado e o comissário dizem que é briga de vizinho. Eles não têm o olhar de que essa atitude é racismo institucional deles. Eles precisam conhecer nossas tradições”, afirma. Em resposta ao questionamento de Nangetu, a corregedora geral da Polícia Civil do Pará, Liane Martins, defende que a polícia está sim preparada para lidar com os casos de violência contra terreiros. “Hoje todas as nossas unidades trabalham com assistentes sociais e existe a Delegacia de Crimes Discriminatórios, que é voltada especialmente para esse tipo de crime”, defende.

“Quando fazemos denúncia de intolerância religiosa, o delegado e o comissário dizem que é briga de vizinho."

Ao ser questionada sobre as providências tomadas em relação aos crimes contra pais de santo na RMB, a Polícia Civil do Pará informou que todos os casos registrados do ano passado para cá tiveram inquéritos instaurados e alguns foram concluídos, com autores e motivações definidos. Esse é o caso, garante a Polícia Civil, do pai Marco Antônio Albuquerque da Cruz, de 50 anos, babalorixá do candomblé, encontrado morto dentro da casa em que morava no bairro da Pratinha II, em Belém, ano passado.

O inquérito, segundo a assessoria de comunicação da PC, foi concluído com indiciamento de uma pessoa por crime de homicídio qualificado. As investigações concluíram que o crime foi passional e envolveu também uma briga patrimonial. “Outro exemplo é o caso do pai Roberto Ruan Neves da Silva, morto dentro de um templo evangélico, em Benevides, também no ano passado. O inquérito desse crime foi concluído com a identificação e indiciamento de um homem envolvido no homicídio identificado como Messias”, informou a assessoria. A investigação sobre o pai José Mário Cavalcante da Silva ainda está em aberto.

O Conselho Estadual de Segurança recebeu solicitações das lideranças para que seja criado um grupo de trabalho e marcada uma reunião especial com o governador Simão Jatene 
(Foto: Kleyton Silva)

A Polícia Civil também afirma que quando há casos de homicídio de líderes ou pessoas ligadas a movimentos religiosos, há a apuração dos crimes, por meio de inquérito policial, na qual as diversas possibilidades quanto à motivação dos atos são apuradas. “Inclusive, as de cunho discriminatório com relação à religião seguida pela vítima.”

Como resposta das autoridades estaduais, na última reunião do Conselho Estadual de Segurança Pública do Estado do Pará (Consep/PA), ocorrida na última quarta-feira, 24, foi determinado, a partir das solicitações de aproximadamente dez casas e entidades afro-religiosas, que será desenvolvida uma proposta de grupo de trabalho para tratar de forma específica sobre afro-religiosidade e racismo. O secretário estadual de segurança pública e presidente do Consep, general Jannot Jansen, comprometeu-se na ocasião em propor ao governador Simão Jatene a realização de uma reunião específica junto aos líderes religiosos.

O encontro realizado na Seara de Umbanda Mamãe Oxum, que abriu nossa reportagem, também obteve encaminhamentos. As lideranças presentes decidiram pela organização de uma caminhada pelas ruas de Ananindeua , a ser realizada no mês de setembro, com a temática “Água de Oxalá, trazendo paz para Ananindeua”. O objetivo? Trazer mais segurança e tranquilidade aos povos de terreiro. E construir cidades onde pessoas como pai Carlos Nazaré possam andar na rua sem serem seguidas por olhares desconfiados.
Fonte: http://www.outros400.com.br/urubuservando/4054

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

ADESÃO DO PARÁ E O SILÊNCIO “POPULAR”: uma reflexão sobre a história única e a marginalidade das diferenças.


Todo ano, no Pará, vivenciamos um feriado em que não existe empatia alguma por parte dos sujeitos que deveriam ser os primeiros a lembrar de seu significado. No dia 15 de agosto de 1823, ocorreu, formalmente, a adesão do Pará a Independência do Brasil. Em outros lugares, como na Bahia, a festa da independência é uma grande comemoração popular. Mesmo com suas dimensões folclóricas e carnavalizadas, trata-se de uma interessante oportunidade para refletir, naquele Estado, os lugares sociais dos sujeitos envolvidos. Negros, indígenas e sertanejos são representados, quando não presentes como indivíduos reais, no cortejo da festa que ocorre nas ruas de Salvador. No entanto, no Pará, a data passa como mais um feriado comum, sem nenhum vínculo de responsabilidade ou de interesse para os principais protagonistas dessa história: os paraenses. Bem, cabe refletir o porquê de tal apatia. Em 1822, quando foi declarada a Independência do Brasil, no Rio de Janeiro, então capital do Império, o Estado brasileiro não tinha condições estruturais, administrativas e militares, para impor a independência a todo o território. A marinha era portuguesa. Não havia forças nacionais. Aliás, não havia sequer “povo brasileiro”, pois a maioria da população negra ainda estava escravizada e a população indígena, marginalizada como “selvagem” e considerada como sinônimo de atraso. Brasileiros seriam apenas os brancos descendentes dos portugueses. Frente a tais limitações, a solução do governo foi contratar mercenários estrangeiros para impor a independência para além da capital. Apenas em 1823 a frota mercenária se aproximou do Pará, visando dar continuidade ao processo de independência. Internamente, Belém fervilhava. O interesse pela independência era grande, mas as elites portuguesas se mantinham no poder graças à superioridade bélica e econômica que os favorecia. O contato entre a capital paraense e Lisboa era mais prático do que as comunicações com o Rio de Janeiro. Além disso, a marinha portuguesa garantia a dominação colonial. Quando os mercenários chegaram ao Maranhão, uma frota menor foi enviada para “negociar” a independência paraense. Consta que os portugueses, temerosos por suas fortunas, acataram a independência. Eis o porquê de um termo nada coloquial ou popular, como “adesão” passou a ser a referência para a independência paraense. Ao saber da notícia, populares saíram às ruas, invadiram comércios portugueses, e negros escravizados chegaram a acreditar em uma possível liberdade. Os ricos portugueses, temerosos por seus privilégios, apelaram para a solidariedade branca. Solicitaram a intervenção dos mercenários alegando que havia conflitos na cidade contra a “adesão”. Os mercenários invadiram a cidade e caçaram todos os que eram considerados como suspeitos. O resultado foi o encarceramento de 256 pessoas nos porões de um navio ancorado na baía do Guajará. O episódio, que terminou em tragédia para os paraenses, ficou conhecido como o “massacre do brigue palhaço”. Homens de idades diferentes que lutavam pela independência foram assassinados no porão em nome da “adesão” do Pará a Independência. Como resultado, o Pará aderiu à independência, mas o poder continuou nas mãos dos portugueses e de seus descendentes. Não mudou quase nada a situação dos paraenses. Tanto que outras lutas voltaram a ocorrer e a maior delas ficou conhecida como nome de Cabanagem, ocorrida em 1835. Contudo, não cabe aqui narrar em detalhes essa outra experiência amarga sofrida pelos paraenses. Adianto apenas que o resultado não foi diferente do que aconteceu anteriormente: a violência branca, do governo do Rio de Janeiro, contra a mobilização de negros, tapuias, ribeirinhos e outros rebeldes. Por consequência, a descendência portuguesa se manteve no governo paraense com o final do movimento cabano. As derrotas das iniciativas populares e a manutenção do poder branco de ascendência portuguesa, ajudam a entender o porquê do dia da “adesão do Pará” passar sempre e literalmente em “branco”. As escolas emudecem. Os intelectuais entendem que não diz respeito a eles. Os comerciantes negociam do modo clássico, como sempre fizeram, em desvantagem para o trabalhador. Os currículos de formação, mesmo os de história, continuam repetindo uma história única, como se a história do Pará fosse apenas a continuidade da história portuguesa. Assim, os diferentes, marginalizados pela história única, continuam sujeitos aos novos porões de Brigue palhaços modernos: o latifúndio e a grilagem de terras, que estrangulam a resistência quilombola e indígena. Que possamos refletir sobre esses silêncios de histórias não contadas. Que a adesão se torne realmente uma referência de independência. Contudo, para que isso ocorra, será preciso resignificá-la com novas práticas. Nada de sujeição ao Estado e ao racismo que persiste em nosso meio. Que a memória das iniciativas de revoltas, mesmo derrotadas, seja despertada. Teremos, assim, a oportunidade de forjar ações diretas contra uma mentalidade colonial que persiste nas práticas paraenses. Como diria o saudoso Vicente Salles: “Nós que vivemos em uma região colonial não podemos tolerar o conformismo dos colonizados”.

 

Augusto Leal

Autor de Gladiadores de escassa musculatura


Cametá, 15 de agosto de 2017.